Na estação, avisto uma interessante figura a percorrer toda a extensão da plataforma. Aquela imagem é intrigante e diferente dos outros presentes. Pára diante de mim e me abençoa com "A paz de noss' Senhor Jesus Cristo" e repete o gesto adiante com uma mãe e sua filha.
Mas não foram apenas estes gestos que me intrigaram. Mesmo no calor de novembro, este senhor vestia-se magistralmente com um terno azul escuro e sapatos pretos. Trazia na mão esquerda um ramalhete verde de não-sei-o-que e uma bolsa a tira-colo com um guarda-chuva em um dos bolsos.
Entramos no mesmo vagão e, embora abundassem lugares, o senhor não se sentou. Em sua polidez, repetiu o gesto apertando cordialmente a mão de cada passageiro com um sincero "bom dia" e "a paz do Senhor".
Esse fato ocupou boa parte de meus pensamentos neste dia. Embora aquela figura fosse diversa de todos e do que estamos habituados a ver diariamente, acredito que o pensamento da maioria dos presentes fora o de que aquele senhor pudesse ser louco ou sofrer algum distúrbio qualquer. Em uma capital como Belo Horizonte, só mesmo sendo louco para sair cumprimentando e dando a paz de Deus a todo mundo, ainda mais a quem não se conhece. Mas, fiquei pensando, quem é que pode sofrer algum distúrbio, aquele polido senhor, ou nós outros, presos em nossa redoma de individualismo egoísta e narcisista? Em três anos de Belo Horizonte, foi a primeira vez que vi alguém feliz a dar bom dia e desejar a paz a dezenas de desconhecidos, como Francisco de Assis, o santo. Eu mesmo não sei se sou tão desenvolvido e despido de preconceitos a ponto de fazê-lo. E nossa humanidade ainda não evoluiu o bastante para isso.
O senhor trazia pendurado à roupa um crachá, escrito a mão, em que se lia: "Coronel João da Cruz Borges". Talvez um mensageiro de esperança e paz.
Deus esteja.
Amém.